• Bem vindo à Clinica de Infectologia Dr. Lambertucci

Chicungunha é um aportuguesamento de chikungunya, o nome da doença na língua maconde, um dos idiomas oficiais da Tanzânia, onde foi documentada a primeira epidemia da doença em 1953. O termo provém da raiz verbal kungunyala, e significa “tornar-se dobrado ou contorcido”, em referência à aparência curvada dos pacientes causada pela artralgia. 

Em Angola (África) a doença é popularmente conhecida por catolotolo, palavra proveniente do quimbundo katolotolu, derivação do verbo kutolojoka (“ficar alquebrado”).

Atenção: a febre de Chikungunya, é chamada em português de febre Chicungunha*

A apresentação clínica se manifesta pela presença de febre e dor nas articulações. O período de incubação varia de dois a doze dias após exposição ao vírus. Seguem-se dores de cabeçadores musculares, inflamação das articulações e erupções cutâneas. Os sintomas geralmente melhoram em uma semana. Dores nas articulações podem persistir por meses ou anos. Formas graves da doença ocorrem em as crianças mais novas, idosos e pessoas com outras doenças associadas.

O Chicungunha é arbovirose causada pelo vírus enzoótico de RNA pertencente à família Togaviridae e ao gênero Alphavilae, encontrado principalmente em regiões tropicais e subtropicais da África, nas ilhas do Oceano ìndico, no Sul e no Sudeste da Ásia.

A partir de 2013, o vírus chicungunha (CHIKV) estabeleceu-se nas Américas com o início de epidemias em diversas ilhas do Caribe.

Sua transmissão ocorre pela picada da fêmea dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus infectados pelo CHIKV, e período de viremia de até 10 dias após o surgimento das manifestações clínicas. A infecção neonatal é grave.

Brasil

No Brasil, o primeiro caso foi confirmado em setembro de 2014 na cidade de Oiapoque, localizada no Amapá. No restante do ano, foram confirmados outros 2.772 casos de Chicungunha nas regiões Norte, Centro-Oeste e Mato Grosso do Sul. A epidemia se espalha.

SÍNTESE

A febre Chicungunha é causada por um artrópode arbo-alfa-vírus transmitido por mosquitos que causam doença aguda febril que se apresenta com poliartralgia, artrite inflamatória e erupções cutâneas agudas. O vírus chikungunha (CHIKV) possui quatro genótipos: Oeste Africano, Leste-Centro-Sul (ECSA), asiático e Oceano Índico (IOL).

Viajantes infectados espalharam o vírus para novas áreas receptivas.

Vários mapas atualizam, com frequência, a distribuição geográfica do vírus Chicungunha. Os primeiros casos relatados nas Américas ocorreram em 2013 nas ilhas do Caribe. A seguir, o vírus espalhou-se para o continente americano. Por exemplo, o estado da Flórida (USA), em 2014 e é reportado largamente em Porto Rico.

A transmissão do vírus se faz do mosquito ao homem. Os insetos vetores são o Aedes aegypti e Aedes albopictus. Os mosquitos picam durante o dia e à noite. Eles também transmitem os vírus Zika e Dengue. A transmissão do Chicungunha afeta o feto e, ainda, transmite por transfusão de sangue.

Após período de incubação de 3 a 7 dias (1-14 dias) surgem os sinais e sintomas com febre e mal-estar. Dores articulares surgem 2 a 5 dias após o início da febre e envolve várias articulações (> de 10). Artralgia é bilateral e simétrica, associada a rigidez das articulações ao amanhecer.

As lesões de pele são do tipo exantema macular ou maculopapular e duram de 3-7 dias. Complicações graves incluem: meningoencefalite, insuficiência cardiorrespiratória, insuficiência renal aguda e morte (mais frequentes em pacientes idosos ou > 65 anos) e em pessoas com doenças crônicas debilitantes.

Manifestações musculoesqueléticas crônicas e tenossinovite ocorrem na fase aguda e persistem na fase crônica. Artrite inflamatória pode perdurar por semanas, meses ou anos.

Os sintomas articulares podem ser persistentes ou recorrentes.

O diagnóstico de infecção pelo vírus chicungunha deve ser suspeitado em pacientes que se manifestam com febre e artralgia de início súbito associado a fatores epidemiológicos (residência ou viagem para áreas onde há mosquitos transmissores ao vírus).

O diagnóstico de chicungunha é confirmado pela técnica do RNA do vírus via RT-PCR (real time reverse-transcription polymerase chain reaction) ou sorologia para o vírus. Testes para o vírus Zika e Dengue também devem ser descartados.

A possibilidade de infecção dupla deve ser considerada nos casos de apresentação atípica ou febre persistente (> 5-7 dias). Surtos de chicungunha já foram relatados juntamente aos surtos de dengue, Zika e febre amarela. A associação de outras doenças também foi observada (Chicungunha, Dengue, Zika) ou Chicungunha e Amebíase.

Tratamento e Vacinação

Não há tratamento específico contra a febre da Chicungunha. Os tratamentos são sintomáticos (analgésicos e anti-inflamatórios). A maioria dos casos da doença regride espontaneamente. Nos casos persistentes os anti-inflamatórios são usados. O uso de corticosteroides é justificado em casos selecionados.

Uma vacina atenuada contra o vírus chicungunha (VLA1553) foi aprovada pelo FDA-USA em 2023. A investigação foi baseada em estudo duplo cego randomizado baseado em 4.128 adultos saudáveis (idade >18 anos) e randomizado com dose única da vacina ou placebo (27). Houve resposta de anticorpo neutralizante em 96% dos indivíduos injetados com a vacina. Dois pacientes tiveram resposta adversa grave atribuídas à vacina (mialgia e síndrome de secreção inapropriada do hormônio antidiurético) com melhora espontânea (11).

Outras vacinas e seu uso na prevenção do vírus chicungunha encontram-se em andamento.

Referências

  1. Roth A, Mercier A, Lepers C, et al. Concurrent outbreaks of dengue, chikungunya and Zika virus infections – an unprecedented epidemic wave of mosquito-borne viruses in the Pacific 2012-2014. Euro Surveill 2014; 19.
  2. Ratsitorahina M, Harisoa J, Ratovonjato J, et al. Outbreak of dengue and Chikungunya fevers, Toamasina, Madagascar, 2006. Emerg Infect Dis 2008; 14:1135.
  3. Silva MMO, Tauro LB, Kikuti M, et al. Concomitant Transmission of Dengue, Chikungunya, and Zika Viruses in Brazil: Clinical and Epidemiological Findings From Surveillance for Acute Febrile Illness. Clin Infect Dis 2019; 69:1353.
  4. Nayar SK, Noridah O, Paranthaman V, et al. Co-infection of dengue virus and chikungunya virus in two patients with acute febrile illness. Med J Malaysia 2007; 62:335.
  5. Ezzedine K, Cazanave C, Pistone T, et al. Dual infection by chikungunya virus and other imported infectious agent in a traveller returning from India. Travel Med Infect Dis 2008; 6:152.
  6. Tauil, Pedro Luiz (2014). «Condições para a transmissão da febre do vírus chikungunya»Epidemiol. Serv. Saúde. v.23 (n.4).
  7. Caglioti C, Lalle E, Castilletti C, Carletti F, Capobianchi MR, Bordi L (julho de 2013). «Chikungunya virus infection: an overview». The New Microbiologica. 36 (3): 211–27. PMID 23912863.
  8.  «Chikungunya Virus Symptoms, Diagnosis, & Treatment»CDC. 6 de abril de 2016. Consultado em 26 de setembro de 2016Cópia arquivada em 21 de setembro de 2016.
  9.  Silva, José V.J.; Ludwig-Begall, Louisa F.; Oliveira-Filho, Edmilson F. de; Oliveira, Renato A.S.; Durães-Carvalho, Ricardo; Lopes, Thaísa R.R.; Silva, Daisy E.A.; Gil, Laura H.V.G. (dezembro de 2018). «A scoping review of Chikungunya virus infection: epidemiology, clinical characteristics, viral co-circulation complications, and control». Acta Tropica (em inglês): 213–224. PMC 7092809 PMID 30195666.
  10. Schrauf S, Tschismarov R, Tauber E, Ramsauer K. Current Efforts in the Development of Vaccines for the Prevention of Zika and Chikungunya Virus Infections. Front Immunol 2020; 11:592.
  11. Schneider M, Narciso-Abraham M, Hadl S, et al. Safety and immunogenicity of a single-shot live-attenuated chikungunya vaccine: a double-blind, multicentre, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet 2023; 401:2138.
  12. UptoDate 2024.
Inseto (mosquito)

IMAGENS

A fêmea é maior do que o macho
Aedes Albopictus
DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DO VÍRUS DA FEBRE DE CHICUNGUNHA

SINAIS E SINTOMAS

EXANTEMA MACULOPAPULAR

O exantema normalmente é macular ou maculopapular, acomete cerca de metade dos doentes e surge normalmente do segundo ao quinto dias após o início da febre. Atinge principalmente o tronco e as extremidades (incluindo palmas e plantas), podendo atingir a face.

Dores articulares
Exantema de chicungunha no antebraço
Corcunda devido à postura (dor) da Chicungunha
Postura correta do paciente com Chicungunha