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HERPES 8 (HHV-8)

SARCOMA DE KAPOSI

A denominação “herpesvírus” vem do latim herpein, cujo significado é rastejar, arrastar, pelo fato destes vírus ocasionarem infecções crônicas, latentes e recorrentes. Em 1950, foi demonstrado pela primeira vez que o vírus do herpes simples se torna latente após uma infecção primária. A distribuição destes vírus é bem ampla com cerca de 200 tipos de vírus isolados dos mais diferentes hospedeiros, como mamíferos, aves, répteis e peixes, porém somente oito são patogênicos ao homem. Estes vírus são classificados em famílias e subfamílias.

Herpesvírus Humano tipo 8 (HHV-8)

O Sarcoma de Kaposi (SK) foi descrito pela primeira vez por Moritz Kaposi, em 1872, no Leste europeu. O sarcoma se caracteriza por uma lesão angioproliferativa e inflamatória nos membros inferiores complexa, extremamente comuns em populações do mediterrâneo e ainda mais comum em algumas regiões africanas. Embora seja raro nos Estados Unidos (EUA) e oeste da Europa, com a pandemia do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), em 1980, emergiu como a neoplasia mais comum em pacientes acometidos por este vírus.


A partir de estudos epidemiológicos desenvolvidos por Beral e colaboradores, no final da década de 1980, a via sexual foi estabelecida como a rota preferencial de transmissão do vírus, com alta prevalência das regiões do Mediterrâneo e países da África.


Em 1996, o genoma do vírus foi sequenciado a partir de lesões do SK. Este novo vírus foi denominado herpesvírus, associado ao sarcoma de Kaposi (KSHV) ou herpesvírus humano tipo 8 (HHV-8). Posteriormente, o HHV-8 foi associado a outros quadros clínicos, como o linfoma de cavidade do corpo ou linfoma de efusão primário e a doença multicêntrica de Castleman (MCD).

O genoma viral codifica diversos produtos que compartilham homologia estrutural e funcional com proteínas humanas que possuem papel fundamental na proliferação celular, o que pode explicar a contribuição do vírus para a transformação maligna. A frequência mundial do HHV-8 detectado em SK varia entre 80 a 100%. Os principais métodos utilizados para diagnosticar a infecção viral são hibridização in situ, imuno-histoquímica, análise sorológica e PCR, esta última mais sensível.

Classificação e Morfologia


O HHV-8 é classificado na família Herpesviridae, subfamília Gamaherpesvirinae, gênero Rhadinovirus, tipo 8: herpesvírus tipo 8 (HHV-8) ou herpesvírus humano associado ao sarcoma de Kaposi (KSHV). Este vírus compartilha um grande número de características morfológicas comuns aos outros herpesvírus, tais como: DNA dupla fita linear.

Patogênese

Nos países da América do Norte, a transmissão do HHV-8 ocorre, principalmente, através do contato homossexual masculino, em que o vírus é mais prevalente do que entre usuários de drogas endovenosas, hemofílicos e mulheres. A transmissão por contato heterossexual não parece ser estatisticamente relevante. Nos países do mediterrâneo, que têm a doença de forma endêmica, a transmissão ocorre na infância após a diminuição dos anticorpos maternos. Filhos de mães infectadas com o HHV-8 apresentam soroconversão mais cedo que filhos de mães não-portadoras. É rara a infecção por HHV-8 em crianças que não vivem em região endêmica.


Ao contrário dos outros herpesvírus, pouco se conhece a respeito das manifestações clínicas na infecção primária pelo HHV-8. Tem sido observada uma síndrome semelhante à mononucleose, com sintomas de febre, artralgia, esplenomegalia, e linfadenopatia cervical, com aumento de IgM específica para HHV-8.


O SK pode ocorrer em diversos tecidos, mas é comumente encontrado na pele, principalmente nas extremidades inferiores. O HHV-8 está presente tanto em células endoteliais microvasculares quanto nas células espinhosas de lesões iniciais de sarcoma, significando que os eventos iniciais do sarcoma são desencadeados pela infecção viral. O HHV-8 também pode ser encontrado em linfócitos B, monócitos e leucócitos dos pacientes com risco de desenvolverem Sarcoma de Kaposi.

O comportamento clínico clássico do SK em adultos imunocompetentes é muito indolente, e indivíduos acometidos por esta doença geralmente apresentam sobrevida elevada, falecendo de outras doenças. Já em pacientes portadores do HIV, o SK é bem mais agressivo, podendo se espalhar pelo organismo e envolver estruturas linforreticulares, trato gastrointestinal e pulmões, além da pele. O envolvimento pulmonar é um péssimo prognóstico e a morte por falência pulmonar é muito comum. Além disso, pacientes com HIV tem 300 vezes mais chances de adquirir SK do que outros indivíduos com outras imunodeficiências.


Manifestações Clínicas

É a doença mais importante associada ao HHV-8, sendo uma desordem multifocal proliferativa de origem vascular, encontrada em quatro formas epidemiológicas mais frequentes: 1) associada à AIDS (AIDS-SK), mais observada em homens homo/bissexuais HIV-1 positivos; 2) o SK Africano (SKA), mais prevalente em certos locais da África e que corresponde a 10% dos tumores encontrados nestes locais, podendo adquirir uma forma muito agressiva após infecção por HIV-1; 3) o SK clássico (SKC) que ocorre em pacientes idosos de certas áreas do oeste do Mediterrâneo, com característica mais branda; e 4) SK associado à terapia imunossupressora pós-transplantes, denominada SK pós-transplante (PKS). A lesão é caracterizada por múltiplas manchas, de aparência nodular ou planar, principalmente nas extremidades do corpo, envolvendo mucosa e vísceras, principalmente na AIDS-SK. O estágio final é representado por uma fase tumoral nodular.