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VARÍOLA HUMANA

A varíola humana, também chamada de bexiga, é doença descrita desde a antiguidade e que foi erradicada do planeta pela vacinação. A OMS declarou a erradicação em 8 de maio de 1980. Antes da descoberta da vacina, a varíola era responsável por grande número de mortes (30% dos infectados).

Trata-se de doença infectocontagiosa causada pelo vírus Orthopoxvírus variole (família Poxviridae, e gênero Orthopovírus). É vírus DNA e permanece viável por vários meses no meio ambiente.

As evidências mais seguras de surgimento da infecção vêm de múmias da 18ª dinastia egípcia (1580-1350 a.C.). No sexto século d.C. era comum no norte da África, de onde teria passado à França. No Brasil, a doença foi descrita em 1563, no Estado da Bahia (Henderson et al. 1999).

Ao lado da peste negra, tuberculose e AIDS, ela se inclui entre as doenças mais mortais do planeta. Afeta o sistema imunológico e provoca diversas lesões na pele.

Durante séculos causou grande impacto na saúde das populações e várias epidemias resultaram elevado número de mortos. Atualmente, os Estados Unidos e a Rússia mantêm o vírus da varíola em seus laboratórios. Eles o fazem porque não confiam em outros países; em detrimento da possível colaboração de outros que poderiam contribuir para o conhecimento da doença e benefício da humanidade.

O vírus adaptou-se a roedores silvestres e aos bovinos. Daí, infectou o ser humano há cerca de 5 mil anos. A doença teria surgido na Índia e África. A primeira descrição clínica da varíola foi feita por Rhazes, médico árabe do século da nossa era.

Ela foi usada como arma biológica pelos exércitos europeus, os Estados Unidos da América do Norte, o México, Espanhóis e pelos portugueses no Brasil. Após o atentado das torres gêmeas em Nova York em 2001, vários países se preocuparam com a possibilidade de atentados biológicos nas Américas, em particular, o Brasil.

Não havia, então, vacinas contra a varíola, que atendessem à população brasileira e nem havia condição de produzir vacinas suficientes para a nossa população (porque não sabiam ou podiam produzi-la). Felizmente, os atentados biológicos não ocorreram. A vacina é eficaz. Atualmente, o Brasil não possui as vacinas (OPAS, 2022) e o ministro da Saúde (2022) afirmou que a pasta está em contato com a OPAS para avaliar compras de doses (merecemos críticas à América Latina – e devemos assumir nossa vergonha e submissão aos países que dominam o conhecimento e o direito de fabricá-la).

Transmissão

A transmissão, quando ocorre de pessoa a pessoa, acontece por meio de contato próximo. A infecção pode ser por via respiratória, mas é preciso contato face a face e perto por tempo prolongado. Em comparação, o Sars-CoV-2, vírus que causa a Covid-19, também se transmite por vias respiratórias, mas não precisa de contato tão próximo e nem prolongado.

Outra forma de infecção ocorre por meio das feridas, parecidas com bolhas, como ocorre na varíola dos macacos. Por justamente ter transmissão que precisa de contato muito próximo, os novos casos ainda carecem de explicações. A varíola pode ser contraída ao manusear-se roupas, lençóis ou outros objetos contaminados pelo doente, por exemplo. Os estudiosos não entendem ainda como a transmissão está acontecendo. Haveria casos assintomáticos? Mutações no patógeno?

O vírus não costuma ter mudanças, mas alguma coisa aconteceu nele para explicarmos essa explosão de casos.

Na varíola, o vírus é mais comumente transmitido por gotículas eliminadas pelo doente. Ela é classificada em dois tipos: varíola major e varíola minor.A varíola major tem letalidade de 30%. Na varíola minor, por sua vez, a letalidade mostra-se inferior a 1%.

Apesar de menos comum, a varíola pode ser contraída ao manusear-se roupas, lençóis ou outros objetos contaminados pelo doente, por exemplo.

Diagnóstico

O período de incubação médio da varíola é de 12 dias. Após isso, os sintomas surgem de maneira abrupta, sendo marcados pelo surgimento de febre alta e dores de cabeça, dores no corpo, abatimento e calafrios. Esses sintomas têm duração de cerca de quatro dias, e, após esse período, a doença progride para a forma mais grave, com redução da febre e surgimento de erupções na pele.

A varíola provoca lesões na pele e pode levar à morte. As lesões iniciam-se como máculas (lesão sem relevo), depois tornam-se pápulas (elevação sólida), e, posteriormente, tornam-se vesículas contendo líquido e cercadas

por um halo eritematoso regular. As vesículas evoluem para pústulas (pequenas bolhas de pus). Durante essa fase da doença, o risco de cegueira é grande, pois as lesões provocam coceira, e, ao coçar e tocar os olhos, o doente pode desencadear inflamação no órgão. As lesões evoluem, posteriormente, para crostas e a febre regride. As crostas caem cerca de 10 dias após sua formação. Ao caírem, elas podem deixar cicatrizes permanentes na pele.

As mortes ocorriam geralmente em decorrência da resposta inflamatória intensa e, então, evoluir para choque volêmico e falência de múltiplos órgãos.

O diagnóstico de laboratório se faz com a retirada do líquido da vesícula ou do macerado das crostas e examinado por microscopia eletrônica e/ou PCR, que permite a identificação do vírus da varíola e isolamento do vírus em ovo embrionado e ou em cultura de células. Testes sorológicos são usados em estudos epidemiológicos.

Tratamento

O tratamento da varíola se faz com cuidados gerais para evitar infecções secundárias em comunicantes, com limpeza e uso de antissépticos com/ou sem antibióticos associados. Estudos recentes sugerem efeito do aciclovir – capaz de impedir as manifestações clínicas em animais de laboratório (Chapman et al. 2010).

Vacina

A profilaxia e a vacinação antivariólica também protegem contra o vírus da cowpox (varíola bovina). A vacina contra a varíola foi a responsável por erradicar a doença do planeta, pondo fim a mortes e sequelas irreversíveis.A vacina contra a varíola foi criada por Edward Jenner.

Ele observou, em 1789, que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola após adquirirem a varíola bovina. Em 1796, ele extraiu o pus presente em uma lesão de uma pessoa que tinha contraído a varíola bovina e inoculou-o em menino saudável, o qual adquiriu a doença de forma branda.

Os integrantes da família orthopoxvírus oferecem uma espécie de “imunidade cruzada”. Alguns estudos revelam que as pessoas vacinadas contra a varíola – lá atrás -, há mais de 40 anos, possuem alguma proteção contra o monkeypox (vírus dos macacos). O mesmo não acontece com a faixa etária mais jovem, que não recebeu esse imunizante na infância. Por isso, a doença é mais comum em indivíduos que não alcançaram a quarta década de vida. Pode ser que, o número de pessoas vulneráveis a esses agentes aumentou tanto que causou o surto de proporções internacionais.

Referências

Henderson DA, Inglesby TV, Bartlett JG (1999). Smallpox as a biological weapon medical and public health management. JAMA: 2127-2137

Chapman JL, Nichols DK, Martinez MJ et al. (2010). Animal models of Orthopoxvirus infection. Vet Pathol 47: 852-870.

Levi GC & Kallas EG. Varíola, sua prevenção vacinal e ameaça como agente de bioterrorismo. Rev Assoc Med Bras 2002; 48 (4): 357-362.

ALERTA; Varíola dos macacos: leia as principais perguntas e respostas sobre a doença. Brian M.J. Mahy. Centers for Diseases Control and Prevention, 5 de julho de 2022.

Tudden HS, Hamill M, Ghanem KG. Diagnosis and treatment of sexually transmitted infections: A review. JAMA, 2022; 327(2): 161-172.

Sevcenko N. A revolta da vacina. Editora UNESP, 2018: 134pp.

Franco O. História da febre amarela no Brasil. Rio de Janeiro. Impressora Brasileira Ltda, 1969; 208pp.

Varíola em criança

Edward Jenner: a vacina em 1796

Médico vacina criança contra a varíola

Varíola no homem

Varíola grave e regressão das lesões

Varíola nas pernas

Varíola generalizada grave

Varíola humana

Vaccínia